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quinta-feira, 8 de agosto de 2019

Mano, que vergonha (da gente)

Quem vive futebol já se acostumou com a possibilidade de ir do céu ao inferno (e vice-versa) em um instante, em um jogo, um mês. É muito comum também que momentos transformem vilões em heróis improváveis, ou heróis em vilões inesperados. Isso é do futebol e faz parte da magia desse mundo que a graça está exatamente nas possibilidades e improbabilidades. Que graça teria o futebol se ele fosse óbvio e lógico? Certamente ele não seria a paixão nacional que é. Isso tudo faz parte do futebol. O que não faz parte – ou não deveria fazer – do futebol e nem de nenhum outro meio é a ingratidão. Por isso, precisamos pedir desculpas a Mano Menezes.

Mano chegou ao Cruzeiro em 2015 com a difícil missão de nos livrar de um dos nossos maiores medos: a segunda divisão. Depois de uma temporada pífia, ressaca de um bicampeonato brasileiro e tendo perdido os principais jogadores daquelas conquistas, Mano chegou já quase nos acréscimos. Muitos já tinham jogado a toalha, mas com a chegada do treinador, a equipe mudou a postura, embalou uma sequência de vitórias e terminou na surpreendente 8ª colocação. Uma proposta milionária da China – que atire a primeira pedra quem não aceitaria – interrompeu a primeira e curta passagem do ex-treinador da seleção no Cruzeiro.



Ano novo, vida nova, luta para não cair de novo. E, mais uma vez, quem veio nos salvar? Qual é o nome dele? “My name is Mano Menezes”. Eu poderia arriscar a dizer que 5 em cada 5 cruzeirenses que você perguntar qual é o maior medo, a resposta seria: cair para a segunda divisão. Das poucas vezes que corremos esse risco real, o Mano Menezes estava lá para nos livrar de duas. Sempre com muita personalidade e jogando um futebol consistente, objetivo e suficiente – ou quase sempre. O futebol do Mano nunca foi ofensivo nem de encher os olhos nem as redes. Sabemos isso desde que ele apareceu bem no Grêmio, depois foi campeão no Corinthians e chegou à seleção. Esse futebol suficiente, seguro, é também perigoso. Está sempre por um fio, uma jogada, um gol, uma defesa. Se dá resultado, fantástico! Como ele é inteligente e estrategista né? Se não dá, o treinador é retranqueiro, medroso, burro...

Em 2017, o Mano teve, pela primeira vez, a chance de treinar o Cruzeiro desde o primeiro dia do ano. Com o mesmo futebol que segurou o time na série A duas vezes, o Mano segurou resultados por várias partidas e, ao final, o Cruzeiro levantava seu quinto caneco da Copa do Brasil em cima do "poderoso" Flamengo. Obrigado, Mano, por um dos melhores momentos que já senti como torcedor do Cruzeiro! Eu estava lá no Mineirão e nunca vou esquecer daquela emoção na defesa do Fábio e no gol do Thiago. Mas o que diriam os torcedores sobre o Mano se o o chute do Diego tivesse sido um pouco mais pro canto e o escorregão do Thiago Neves tivesse o atrapalhado? "Covarde, jogou na retranca contra o Flamengo em casa." Mano continuou, assim como seu futebol suficiente, e veio mais um ano. Nem o mais otimista do torcedor acreditava que o Cruzeiro poderia conquistar o inédito bicampeonato da Copa do Brasil. Pois o futebol do time do Mano foi suficiente para isso, batendo, dessa vez, o favorito (e sempre favorecido) Corinthians.



O ano de 2019 marcava a longevidade, tão rara na história celeste e no futebol brasileiro. Mano era o técnico mais longevo do Brasil e um dos mais da história do Cruzeiro. Surpreendentemente, o seu time, pela primeira vez, parecia ser um pouco mais que suficiente. O Cruzeiro começou o ano voando, arrancado elogios e sendo apontado como favorito a tudo. Mas era só um início, Campeonato Mineiro, fase de grupo da Libertadores, equipes mais fracas até então. Muita coisa ainda tinha para acontecer no ano. O que não precisava ter acontecido e ninguém esperava por foi a crise interna que explodiu no clube com as denúncias de corrupção da diretoria celeste.



Mano ainda conseguiu blindar o time como pôde e garantiu uma vitória maiúscula e importante contra o arquirrival Atlético Mineiro nas quartas de finais da Copa do Brasil. Mas era evidente que time e torcida tinham sentido o golpe. Para piorar, o time perdeu peças importantes como Lucas Silva e Lucas Romero, além da lesão de Rodriguinho. Ainda assim, o futebol do Mano não mudou, era o mesmo de 2015, 2016, 2017 e 2018. Continuava suficiente em alguns casos e próximo de suficiente em outros. Assim como poderia ter sido nos anos anteriores. Mas por um detalhe ou outro, a sorte estava ao nosso lado. Tínhamos também uma válvula importante de escape que costumava decidir nesses momentos de quase suficiência. Mas perdemos também essa válvula logo no início do ano em uma negociação esquisita e conturbada, onde ela mesma forçou a saída e a diretoria achou conveniente para pode maquiar o balanço fiscal de 2018.



O Mano não mudou. O que mudou foi a sorte, o time, o ambiente. O Mano mudou a sorte e o ambiente quando precisamos em 2015 e 2016. Dessa vez ele não foi capaz. Mas ele foi capaz de nos salvar duas vezes quando precisamos e de nos dar duas Copas do Brasil quando menos esperávamos. Sem falar nos dois campeonatos mineiros em cima do maior rival. Por tudo isso, devemos gratidão. Gratidão é um sentimento bonito. Assim como ingratidão é feio, e muito. Poucas vezes me senti tão envergonhado em ser cruzeirense quanto ontem. Mas não pelo futebol do time. Senti vergonha ao ouvir as vaias e ofensas pesadas proferidas a um dos maiores treinadores da nossa história. Senti vergonha ao vê-lo fazer um sinal de “tudo bem, eu vou embora” para a torcida. O Mano não merecia isso. Respeito quem queria mudança – embora não concorde que ela comece e muito menos termine pelo técnico -, mas não respeito quem vaiou e ofendeu um cara tão profissional, dedicado e vitorioso da história celeste.

Mano, desculpai-os, eles não sabem o que fazem.

Por: Tarcísio Dias



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